O SACRAMENTO DO MATRIMÔNIO – PARTE III: CORAÇÕES ESTUANTES DE AMOR

Chega a hora da consagração, Jesus baixa ao altar. Debaixo das espécies eucarísticas, ali está, ali reina, ali domina, e os dois esposos acercam-se novamente do altar enquanto o sacerdote volta-se para pronunciar as palavra ou benção que vai dar ao jovem casal, pede ao Deus de Israel, de Abraão, de Isaac, de Jacob, que venha abençoar aqueles que se unem.

Pede a esse Deus, que instituiu o sacramento do matrimônio que faça com que aquela esposa seja fiel, seja forte, tenha carinhos como Ester, como Rebeca, como Sara e possa evitar os contatos ilícitos, para que, unidos sempre, possam ambos contemplar os seus filhos até a terceira e quarta gerações. E ao esposo que ame sua companheira assim como o próprio Cristo ama a Santa Igreja, zelando, cuidando e protegendo-a de todos os perigos.

Continua o sacrifício, o sacerdote recebe dentro de seu coração Jesus Sacramento, assim também ocorre com os dois jovens em seus corações estuantes de amor. Ali está Jesus, o Rei do lar, ali está Jesus, o Filho de Maria, ali está Jesus, o esposo das almas humildes, ali está Jesus, senhores, cuja presença dentro de um lar sempre alegra e conforta, Jesus, que no meio das dores serve de consolo e no meio das alegrias purifica e santifica, Jesus, que na hora extrema ainda há de vir trazer a conformidade para todos os que ficam e a coragem para os que vão partir.

Fortalecidos pelo Pão da Vida e recebida a última benção, terminada está a cerimônia sacramental.

Dr. h. c. Rogelho Aparecido Fernandes Junior

Como te chamas? Cristão!

És cristão? – Sim pela graça de Deus. Esta é a pergunta que antigamente os tiranos faziam aos mártires e aos confessores da fé, aqueles heroicos cristãos de outrora que souberam fazer do seu peito os primeiros altares da fé e do seu sangue o cimento do edifício espiritual da Igreja.

O tirano Antonino Vero chamou um dia à sua presença um diácono e perguntou-lhe: Quem és tu? Sou cristão, respondeu o diácono! Como te chamas? Chamo-me Cristão! Qual é a tua profissão? A de cristão! Levado ao martírio, antes de exaltar o último alento, o confessor da fé dizia: Não vos canseis em vão; eu sou cristão, cristão e não mais que cristão!

De quem herdamos o nome de cristão? – De Cristo, Nosso Senhor! Os primeiros fiéis que seguiam os ensinamentos do Divino Mestre chamaram-se discípulos e irmãos pelo muito que se amaram entre si. Na cidade de Antioquia, onde por espaço de um ano pregaram São Paulo e Barnabé, os fiéis tomaram pela vez primeira o nome de cristãos, tal é a origem deste nome glorioso, o mais augusto e mais belo nome que temos recebido e do qual sempre nos devemos gloriar.

Servo de Deus Rafael Merry del Val

O SACRAMENTO DO MATRIMÔNIO – PARTE II: A BRANCURA DAS VESTES NUPCIAIS

Coberta de alvas vestes, indicando a pureza e a castidade de seu ser, caminha uma donzela ao lado de um jovem, que envergando traje a rigor, vai dizendo a firmeza da linha que procurará traçar a sua conduta de novo chefe de família. Aproxima-se o cortejo do altar, o sacerdote chega e indaga de cada um dos noivos se quer pertencer ao outro e, ouvindo a afirmativa, lhes diz: “Não separe o homem o que Deus uniu”.

Toma em seguida uma aliança, símbolo da firmeza do laço que vai unir aqueles dois jovens, benze-a, dizendo: “Derramai, Senhor, a vossa bênção sobre estas alianças que abençoamos em vosso nome” para que a pessoa que a levar no dedo conserve castidade e fidelidade a seu e cônjuge e, assim, vivam em mútua amizade, e felizes sejam até vossa elevação ao mais alto dos céus.

No rito extraordinário, é neste momento que o sacerdote sobe o presbitério e repete as palavras que a Igreja lhe põe nos lábios, tiradas da Escritura: Deus Israel conjugat vos qui misertus est duobus unicis. – O Deus de Israel vos una e vos faça viver como se compadeceu dos dois únicos que restavam sobre a terra. No rito ordinário pode-se cantar o Deus Israel conjugat como introito que antecede a celebração ou durante a benção das alianças.

Dr. h. c. Rogelho Aparecido Fernandes Junior

Uma Construção

Começa por uma ideia, por um planejamento, pelos cálculos para se chegar ao concreto do que foi imaginado. Quando se diz que a Igreja está construída encima de um alicerce, que tem como fundamento e colunas de sustentação, os apóstolos Pedro e Paulo, é necessário visualizar a objetividade do Plano de Deus. O engenho histórico institucional desta construção aconteceu em Jesus Cristo.

Todas as entidades são construídas para a realização de algum fim anteriormente projetado. Ao instituir a Igreja, fez e faz parte dos planos do Pai, realizados em Jesus Cristo e sob a guia do Espírito Santo, ser espaço onde as pessoas pudessem vivenciar sua prática concreta de fé. Os apóstolos foram os primeiros a entender isso, seguidos depois pelas primeiras comunidades cristãs.

A Igreja caminha no tempo. Ela sofre o soprar do vento de cada cultura, que a influencia muito, correndo até o risco de perder a própria identidade. Na atualidade isto vem sendo muito forte, tendo que enfrentar situações de infidelidade dentro dela própria, de maus testemunhos de seus membros e todo tipo de ataque que vem de fora. Mas continua navegando assim mesmo sem perder a esperança.

  O que vem acontecendo com a Igreja não está sendo diferente com outras instituições que se colocam a serviço do bem das pessoas. Duas frentes tramam e lutam por resultados: uma do bem e outra do mal. A história sempre foi assim e vai continuar até o fim dos tempos. Mas é preciso ter consciência de que o malfeito é passageiro e o que fica mesmo é o de bom que a pessoa faz.

As instituições, quando bem construídas, permanecem, mas as pessoas passam. A vida do ser humano é muito curta, e cheia de oportunidades para que seja feito o bem. Não se deve perder a oportunidade para a construção do que favorece a vida no aqui e agora, porque amanhã poderá ser muito tarde. Para isto as pessoas precisam dar-se as mãos somando forças para construir o bem.

Celebramos a memória de Pedro e Paulo, dois apóstolos do passado longínquo da Igreja, fazendo refletir, no tempo e na história, as motivações necessárias para que sejam colocados em prática os compromissos emanados da vida de Jesus Cristo. A realidade hoje é outra, os seguidores de Pedro e Paulo também o são, mas os objetivos da Igreja, de ser missionária, não podem ser traídos.

Dom Paulo Mendes Peixoto

O SACRAMENTO DO MATRIMÔNIO – PARTE I: A EUCARISTIA E A PAZ NO LAR

A Eucaristia é a paz no lar! A paz, senhores, é a tranquilidade na ordem. O lar é o teto que cobre a família. O lar católico é um ninho quente, onde corações que se transfundem preparam um ambiente seguro, para poderem tranquilamente repousar os que habitam debaixo daquele teto.

O lar católico brasileiro é um repositório de tradições, de pureza, de nobreza, de firmeza, de brio, entre todas as nações do globo, afirmando perene e constantemente que a fé dos nossos antepassados vive, firme e forte, no coração de seus habitantes, e ali, em todos os momentos da vida, cantam as alegrias de um lar abençoado por Deus, dando, a cada um dos que vivem à sua sombra, a paz que em vão procura o mundo, a paz que só dá Nosso Senhor Jesus Cristo.

O cortejo, senhores, está formado. Caminha solenemente para a igreja. Abrem-se as portas, de par em par. Daí a momentos os instrumentos anunciarão que por ali vai uma família já constituída, depositando suas esperanças numa outra que se vai formar.

Dr. h. c. Rogelho Aparecido Fernandes Junior

O Motu proprio Summorum pontificum e a Instrução Universae Ecclesiae

Em 14 de setembro de 2007 entrou em vigor o Motu proprio Summorum pontificum através do qual o Papa Bento XVI, estabelece que o Rito Romano tem duas formas na celebração da Santa Missa: a forma ordinária e a forma extraordinária. Grande foi a repercussão em todo o mundo católico, pois muitos achavam que era uma volta à Igreja anterior ao Concílio Vaticano II, outros como se fosse um exagero do Romano Pontífice em adotar uma forma litúrgica ultrapassada, apenas para agradar a certos grupos muitas vezes tidos como rebeldes ou saudosistas de uma maneira de celebrar os divinos mistérios de  forma que não seria possível nos dias de hoje. Neste estudo, veremos que o Motu proprio, feito por iniciativa própria daquele que é o princípio e fundamento de unidade estabelecido por Cristo para sua Igreja, é fruto de todo um caminho percorrido após a promulgação do novo Missal, e está em consonância com um projeto de reforma na continuidade, desejada pelos Padres conciliares. Não se tratava nos documentos do Vaticano II de demolir um edifício litúrgico construído pela Igreja por quase 20 séculos, mas apresentá-los às novas gerações, com a devida reforma, mais de acordo com os tempos atuais. O que o Santo Padre deseja é uma convivência das duas formas litúrgicas, para que se enriqueçam mutuamente, deixando implícito que haja uma verdadeira reforma na continuidade.

O Motu proprio é um decreto geral legislativo, conforme o cânon 29, emitido por iniciativa própria do Romano Pontífice. Por isso tem valor de lei geral, conforme o cânon citado: “Os decretos gerais, com os quais são dadas pelo legislador competente comuns a uma comunidade capaz de receber leis, são propriamente leis e se regem pelas prescrições dos cânones sobre as leis”. É, portanto, uma relevante expressão do Magistério do Romano Pontífice de regular e ordenar a liturgia da Igreja Universal, expressão da Lex orandi,conforme o cânon 838 §2:

“Compete à Sé Apostólica ordenar a sagrada liturgia da Igreja universal, editar os livros litúrgicos, corrigir suas traduções nas línguas vernáculas e vigiar para que as normas litúrgicas se cumpram fielmente em todas as partes”.

A publicação deste documento marca o fim de um caminho que foi percorrido desde a promulgação por Paulo VI do Missal Romano renovado, e inicia uma nova etapa no desenvolvimento da liturgia no Rito Romano.

À primeira vista, poder-se-ia imaginar a promulgação do Summorum pontificum como um ato isolado do Romano Pontífice, fruto de suas idéias pessoais, ou como conseqüência de pressões sofridas para acalmar os espíritos daqueles que desejavam uma volta da Igreja anterior ao Concílio Vaticano II e da liturgia pré-conciliar. Nada mais inverídico, pois o Motu proprio foi emitido como fruto de uma tomada de consciência no decorrer dos tempos desde a promulgação do novo Missal Romano até a atualidade.

Na gênese do Motu proprio, alguns documentos da Santa Sé marcam os passos que foram dados para atender àqueles que desejavam continuar com a antiga forma litúrgica, quer por não se adaptaram ao novo missal, quer devido aos abusos que foram cometidos em nome da reforma litúrgica, ou ainda por o considerarem uma ruptura no desenvolvimento litúrgico que vinha se ocorrendo na Igreja no decorrer dos séculos. Este desenvolvimento homogêneo de quase vinte séculos sofreu, segundo Klaus Gamber[1], uma cisão, pois foi construído um novo missal, com elementos antigos, frutos de “escavações” arqueológicas, pinçados aqui e acolá, não expressando assim, o resultado de uma evolução em consonância com a Tradição, como vinha acontecendo até o Concílio Vaticano II.

A Constituição conciliar sobre a Liturgia diz que o Concílio, “obedecendo fielmente a Tradição, declara que a Santa Mãe Igreja considera todos os ritos legitimamente reconhecidos com igual direito e honra e, para o futuro, os quer defender e de todos os modos favorecer” (SC 4)  e que a “Igreja não  deseja impor na Liturgia uma forma rígida e única para aquelas coisas que não dizem respeito à fé ou ao bem da comunidade”. (SC 37) À luz destes princípios, após a promulgação do Missal Romano renovado por Paulo VI, a Santa Sé foi permitindo, primeiro de modo reduzido, depois de modo mais amplo, que a Missa fosse celebrada na antiga forma do rito romano, como vinha sendo feita até 1970. Prova disto são os vários documentos emitidos com este fim:

Em 1971, o cardeal Bugnini, em carta ao Cardeal Jonh Heenam, dá a faculdade aos Ordinários ingleses e do país de Gales de garantir a grupos de fiéis possam utilizar em ocasiões especiais o Missal anterior a 1970. Nesta época foi permitido aos sacerdotes que tinham séria dificuldade com o novo Missal, sobretudo os idosos, que desejassem continuar celebrando na antiga forma o poder fazê-lo. No início dos anos 80, portanto dez anos após a edição do Missal novo, os Bispos de toda a Igreja foram convidados a apresentar um relatório acerca do recebimento dos sacerdotes e fiéis da nova forma, das dificuldades surgidas na aplicação da reforma litúrgica e das eventuais resistências. O resultado da consulta foi enviado aos Bispos e foi apresentado o problema dos sacerdotes e fiéis ligados ao chamado “rito tridentino”. Por isso em 10 de outubro de 1984, a Congregação para o Culto Divino enviou circular a todas as Conferências Episcopais na qual o Santo Padre oferece aos Bispos diocesanos a possibilidade de usufruir de um indulto, onde concede aos sacerdotes junto àqueles fieis que serão indicados na carta de requerimento a ser apresentada ao próprio Bispo, o poder celebrar a Santa Missa usando o Missal Romano segundo a edição de 1962. (Carta circular Quattuor abhinc annos).

Em 1986, o Papa João Paulo II nomeou uma comissão de nove cardeais para examinar o status legal da Missa antiga. Estava tal comissão também instruída para examinar se o Missal promulgado por Paulo VI ab-rogou o Missal antigo e se um bispo poderia proibir os seus sacerdotes de celebrar usando o Missal dito de São Pio V. A comissão se reuniu em dezembro de 1986. Oito dos nove cardeais responderam que o Missal de Paulo VI não tinha ab-rogado o antigo. Todos unanimemente determinaram que o Papa Paulo VI nunca deu aos bispos autoridade para proibir os padres de celebrar a Missa de acordo com o Missal promulgado por São Pio V. Estas conclusões serviram como guias funcionais para a Comissão Ecclesia Dei, mas nunca foram promulgadas. É significativo o fato da Santa Sé sempre ter tornado sem efeito as penas infligidas pelos Bispos aos sacerdotes por celebrarem na forma antiga. Esta é a jurisprudência da Igreja que, depois do apelo do sacerdote, declara nula qualquer suspensão infligida pelo Ordinário pelo fato de celebrar a Santa Missa na forma antiga contra a vontade do Bispo. Em 2 de julho de 1988, após o ato cismático de D. Lefebvre de ordenar Bispos sem mandato pontifício e contra a vontade do Papa, João Paulo II emitiu o Motu proprio Ecclesia Dei aflicta no qual manifesta sua vontade aos fiéis ligados à precedente forma litúrgica e disciplinar da tradição latina de “facilitar a sua comunhão eclesial, mediante as medidas necessárias por garantir o respeito de suas justas aspirações”(Motu proprio Ecclesia Dei aflicta). Pede aos Bispos que se associem a ele nesta vontade de atender a esses fiéis mediante uma ampla e generosa aplicação das diretivas, emanadas pela Santa Sé. Criou a Comissão Pontifícia Ecclesia Dei para atuar junto aos Bispos no intuito de auxiliá-los no atendimento a esses fiéis, além de colaborar com os Bispos e os Dicastérios da Cúria Romana para facilitar a plena comunhão eclesial dos sacerdotes, seminaristas, comunidades religiosas até então ligadas a D. Lefebvre, que desejam permanecer unidas ao Sucessor de Pedro, conservando suas tradições espirituais e litúrgicas. Estas normas perduraram até 14 de setembro de 2007, quando o Papa Bento XVI, através da Carta Apostólica Summorum pontificum, dá uma nova regulação para a liturgia latina, estabelecendo o Missal promulgado por São Pio V em 1570 como Forma extraordinária do Rito Romano. Tal forma deveria ser tida como expressão da mesma lex orandi juntamente com o Missal de Paulo VI, que constitui a  Forma ordinária. Podemos concluir, portanto, que o Missal promulgado após o Concílio de Trento nunca deixou de ser usado na Igreja.

Pe. José Edilson de Lima

EDUCAR NA FÉ

Creio que a melhor e mais bela herança que podemos deixar para as pessoas é a de educá-las na fé. Seja criança, adolescente, jovem e adulto, todos são objetos de formação, porque ninguém nasceu sabendo. Este é um papel fundamental que faz parte dos compromissos familiares. Foi o que aconteceu na Família de Nazaré, quando Jesus crescia em conhecimento, sendo orientado pelos pais.

A Igreja é formadora dos cristãos na fé. São vários espaços que ajudam nesta missão, começando pela família, pela comunidade, pela catequese, pelas paróquias, santuários etc. No Triângulo Mineiro, além de muitas Paróquias cuja Padroeira é Nossa Senhora da Abadia, temos Romaria da Água Suja, que se destaca como um Santuário concorrido por romeiros para expressar sua religiosidade de fé.

Neste ano de 2019 estamos completando 149 anos desta riqueza de religiosidade popular, com a presença, todos os anos, de milhares de devotos que vão à busca da benção generosa da Mãe de Deus. Com isto o Santuário se torna um grande palco de anúncio da Palavra de Deus, de evangelização, de compromisso com a Igreja e de formação das pessoas na fé e na vida de comunidade.

Em 2020 teremos a grande festa de comemoração de um século e meio de evangelização na cidade de Romaria. Significa que Nossa Senhora da Abadia foi a grande evangelizadora nesses 150 anos, porque ela vem atraindo multidões com a finalidade de vivenciar uma espiritualidade mariana como caminho concreto de fé cristã. O ano será de ação de graças por tantas bençãos.

Maria, com o título de Nossa Senhora da Abadia, é a Mãe que nos educa na fé há 149 anos. Quantas pessoas passaram por Romaria nesse tempo! O local tem clima de alegria, de fé, de festa e de muita espiritualidade. Faz bem participar do Jubileu e ver o semblante feliz dos romeiros, que chegam de todos os lados e de formas diversas: a pé, a cavalo, de carro de boi, bicicleta, carro etc.

O legado histórico que Romaria construiu neste quase um século e meio de existência eleva muito a vida da Igreja. Todos aqueles que vão ali marcados por um compromisso sincero de fé, certamente voltam para suas comunidades levando na bagagem a experiência de ter vivenciado um clima religioso comprometido com Jesus Cristo, tendo Nossa Senhora da Abadia como caminho.

Dom Paulo Mendes Peixoto

As bem-aventuranças

O Evangelho nos traz um dos mais belos discursos de Jesus: o sermão das bem-aventuranças.   Em suas primeiras linhas relata que uma imensa multidão, vinda de todos os lugares, rodeava o Senhor, para ouvir a sua doutrina salvadora, que dá sentido à vida. 

É esta a ocasião que Jesus aproveita para traçar uma imagem do verdadeiro discípulo e proclama de bem-aventurados os pobres em espírito, os que sofrem, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os que promovem a paz e os perseguidos por causa da justiça (cf.  Mt 5,3-10).

Trata-se de um programa de vida para os cristãos, com os traços característicos de quem quer seguir Jesus Cristo.  São normas sábias propostas para que o homem possa atingir a felicidade.  A palavra bem-aventurado, do latim “beatus”, significa “feliz”, por isto, todos os bem-aventurados são felizes; na verdade, em todos os seres humanos existe uma tendência irresistível para ser feliz.  Todos querem a felicidade.  É um desejo que está plantado no mais profundo do ser humano.  Todos tendem a atingir a satisfação desse desejo inato.  E neste domingo, o Evangelho nos diz que a verdadeira felicidade só se realiza no encontro com Deus. 

As bem-aventuranças iluminam as ações e atitudes que caracterizam a vida cristã e exprimem o que significa ser discípulo de Cristo (cf. CIgC, n. 1717). Ao mesmo tempo, elas são como que uma biografia interior oculta de Jesus, um retrato da sua figura.  Devemos olhar como Jesus viveu estas bem-aventuranças. Os evangelhos são, do início ao fim, uma demonstração da mansidão de Cristo, em seu duplo aspecto de humildade e de paciência. Ele mesmo se propõe como modelo de mansidão para nós.

A primeira bem-aventurança nos fala que são felizes os “pobres em espírito”, ou seja, os que souberam se posicionar corretamente diante das riquezas do mundo. Jesus se identifica com os pobres.  Ele mesmo nasceu em uma manjedoura, em um lugar simples; e morre em uma cruz, despojado de suas vezes.  E, ao longo da sua vida, não tinha onde reclinar a cabeça (cf. Mt 8,20). E para ser seu discípulo, ele mesmo aconselha renunciar a todos os bens pessoais (cf. Mt 14,33). Por outro lado, nem todos os pobres são bem-aventurados, é preciso ser pobre “em espírito”, ou seja, despojar de seus bens para dividi-los com aqueles que mais  necessitam. É o desapego dos bens materiais e o despojar-se da arrogância e da ambição.

Os mansos também são felizes porque aprenderam a fugir da agitação do mundo, das brigas, dos desentendimentos e irritações.  Nisto também encontramos no Cristo a prova máxima da mansidão, que está no momento da sua paixão e morte de cruz. Mesmo diante da dor e do sofrimento não encontramos nenhum gesto de ira, nenhuma ameaça: “Insultado, não respondia com insultos; ao padecer, não ameaçava” (1Pd 2,23).

Essa característica da pessoa de Cristo ficou gravado, de tal forma, na memória de seus discípulos que São Paulo escreve aos coríntios: “Vos suplico pela mansidão e pela benignidade de Cristo” (2Cor 10,1). Mas Jesus fez muito mais que nos dar um exemplo de mansidão e paciência heróica; fez da mansidão o sinal da verdadeira grandeza e deixou para nós uma lição: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11,2s).  E seguindo este modelo, podemos dizer que os mansos são aqueles conformados com a vontade de Deus, suportam com paciência e coragem as adversidades da vida.

Os que têm fome e sede de justiça precisam lutar constantemente para que cada um receba o que lhe é devido.  A fome e a sede são os impulsos mais fortes que o homem experimenta.  São necessidades básicas para sobrevivência de qualquer ser vivo. Sem a ingestão de líquidos ou alimentos é impossível que se conserve a vida biológica. Contudo, esta bem-aventurança identifica como felizes os que têm sede e fome de justiça; e justiça significa dar a cada um o que lhe é de direito. A Sagrada Escritura, por sua vez, nos diz que Deus é o justo juiz (cf. Sl 7,11), portanto, dá a cada um, de acordo com as suas obras. O texto nos desafia a ter sede dessa justiça ou desse juízo divino e almejar em cada pessoa os seus direitos respeitados.

Os misericordiosos são aqueles que procuram em tudo ajudar os mais necessitados. Enquanto o pecado obscurece o conhecimento das coisas do céu, os puros de coração, sempre agindo por amor a Deus, pelas virtudes infusas, verão a Deus; porque sabem guardar um coração puro para poder assim ter olhos abertos para ver a Deus.  A pureza de coração foi colocada por Jesus entre as bem-aventuranças, pois, não pode faltar na vida de um santo. E São Paulo faz eco às palavras de Jesus, ao dizer aos cristãos de Tessalônica: “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação; que eviteis a impureza, que cada um de vós saiba possuir o seu corpo em santificação e honestidade, sem se deixar levar pelas paixões desregradas como fazem os pagãos que não conhecem a Deus…” (1Ts 4,3-7).

As bem-aventuranças também ressaltam que são felizes aqueles que promovem a paz e, uma vez mais, podemos ver realizadas todas essas exortações na vida do próprio Senhor Jesus. Seu nascimento é revelado aos pastores com o anúncio: “Paz na terra aos homens que Deus ama!” (Lc 2,14). E Ele mesmo disse aos seus discípulos: “Eu vos deixo a paz; eu vos dou a minha paz” (Jo 14,27). Após a sua ressurreição Jesus aparece aos seus apóstolos e os saúda: “A paz esteja convosco!” (Jo 20,19). Trata-se de algo real, algo que é transmitido.

Neste sentido, a paz é quase um sinônimo de graça e, de fato, os dois termos são usados em conjunto, como uma espécie de binômio, no início das cartas de São Paulo: “Graça e paz a vós da parte de Deus e de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 1,7; 1Ts 1,1). Mas a paz também indica a harmonia com Deus, com os outros e consigo mesmo; e, neste sentido, todos nós somos chamados a cumprir esta bem-aventurança, buscando todos os esforços para construir um mundo no qual exista a paz para todos.

Cada uma das bem-aventuranças consiste de duas partes: uma condição e um resultado. Em quase todos os casos, as frases são familiares ao Antigo Testamento, mas o sermão de Jesus as eleva à condição de um novo ensinamento. As bem-aventuranças apresentam um conjunto de ideais, com foco no amor e na humildade, ecoando ensinamentos de espiritualidade e compaixão.

Pode-se ainda dizer que o conjunto de todas as bem-aventuranças traçam, pois, um único ideal: o da santidade.  Ao escutarmos, novamente essas palavras do Senhor, reavivamos em nós esse ideal como eixo de toda a nossa vida. São orientações para seguir no caminho da perfeição. E o evangelho conclui com uma mensagem de esperança: “Estejam alegres e contentes, porque a vossa recompensa será grande no céu” (Mt 5,12).

Que o Senhor nos conceda entender as bem-aventuranças, assimilá-las e vivê-las com determinação, para entrarmos no seu Reino, cujo acesso é reservado para os humildes e para os que ouvem a sua Palavra e se empenham para colocá-la em prática.

Invoquemos a Virgem Maria, aquela que todas as gerações ao de proclamar “bem-aventurada”, porque acreditou na boa notícia que o Senhor anunciou (cf. Lc 1,48), para que possamos seguir com alegria os ensinamentos de seu Divino Filho, através do caminho das bem-aventuranças. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB