Na Liturgia celebramos sempre e só o Mistério pascal de Jesus Cristo, desde a sua Encarnação até ao envio do Espírito Santo prometido aos Apóstolos. Esse Mistério tem no seu centro a Paixão, Ressurreição dos mortos e gloriosa Ascensão do nosso Redentor.
Foi do lado de Cristo adormecido na cruz que nasceu a Igreja, e foi a esta Igreja, na pessoa dos Apóstolos, que Jesus confiou o encargo de continuar a obra por Ele próprio iniciada.
Assim o vai procurando fazer esta Igreja, tantas vezes pobre e fraca, mas simultaneamente rica e forte, o melhor que pode e sabe, evangelizando os pobres, ensinando-lhes o modo de viver que agrada a Deus, e fazendo- -os progredir no mistério insondável do sacrifício pascal do Senhor. Di-lo a Constituição Sacrosanctum Concilium [1]:
«Assim como Cristo foi enviado pelo Pai, assim também Ele enviou os Apóstolos, cheios do Espírito Santo, não só para que, pregando o Evangelho a toda a criatura, anunciassem que o Filho de Deus, pela sua morte e ressurreição, nos libertara do poder de Satanás e da morte, e nos introduzira no Reino do Pai, mas também para que realizassem a obra de salvação que anunciavam, mediante o sacrifício e os sacramentos, à volta dos quais gira toda a vida litúrgica»
O que vem então a ser a Liturgia? A definição é dada pela própria Constituição: «A Liturgia é o exercício da função sacerdotal de Cristo» [2], levado a cabo pela Igreja. Trata-se de uma frase densa, cujo sentido profundo é este: tudo aquilo que Jesus Cristo realizou na terra enquanto sacerdote, continua a Igreja a torná-lo presente em cada época da história na celebração da Liturgia, ou, como o acreditava e expunha, no século V, o papa S. Leão Magno, num dos seus sermões: «Tudo o que na vida do nosso Redentor era visível, passou para os ritos sacramentais», isto é, passou agora para a Liturgia organizada e celebrada pela Igreja.
Para realizar obra tão grande, Cristo está sempre presente na sua Igreja, especialmente nas ações litúrgicas. É por ser obra de Cristo sacerdote e da Igreja, seu Corpo, que qualquer ação litúrgica é ação sagrada de valor único, cuja eficácia não é igualada por nenhuma outra ação da Igreja.
E o que é celebrar a Liturgia? Será repetir gestos feitos ou palavras pronunciadas por Jesus, apenas para recordar cenas da sua vida?
Certamente não. Celebrar a Liturgia nem é repetir apenas para recordar, nem também é repetir para fazer de novo. Jesus morreu e ressuscitou uma única vez. Esse acontecimento histórico é único e irrepetível. Celebrar a Liturgia ou as ações litúrgicas é tornar presente, por intervenção de Jesus e do Espírito Santo, a realidade profunda e invisível do seu Mistério pascal, para entrarmos cada vez mais em comunhão de vida com esse Mistério.
O ponto de partida de qualquer celebração litúrgica cristã é sempre uma palavra de Jesus transmitida pelos Evangelhos ou por outros livros do Novo Testamento: «Ide e fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (celebração do Batismo); Fazei isto em memória de Mim (celebração da Eucaristia); aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados (celebração da Penitência)», etc.
Então, uma vez mais, o que celebramos nós na Liturgia? Celebramos realidades da vida e do mistério de Jesus, por sua vontade expressa, para sermos tocados por elas, delas vivermos e por elas nos deixarmos transformar. A celebração dos mistérios da Liturgia tem um objectivo em relação a nós: fazer-nos viver por Cristo, com Cristo e em Cristo, e por Ele darmos glória a Deus Pai, na força do Espírito Santo que habita em nós.
Dr. h. c. Rogelho Aparecido Fernandes Junior
[1] Sacrosanctum Concilium n.6 [2] idem, n.7 [3] Cf. S. Leão Magno, Sermões para a Ascensão, n.3